Aos 15 anos eu tinha conquistado meu objetivo de ser diferentona e meu cabelo era comentado por todas as meninas da minha turma. Algumas não aprovavam porque a cor era muito chamativa, outras invejavam e minhas amigas me elogiavam muito. Para os professores, era motivo de leves piadas, como o professor de matemática que me chamava de Jean Grey, aquela do X-man. Muitos me achavam parecida com a Haley do Paramore, apenas pela cor do cabelo. No último ano do ensino médio, decidi fazer dreadlocks e passei uma tarde inteira no salão até que ficou muito tarde e eu precisava ir para casa, dessa forma, ficou faltando passar a cera no cabelo e eu deveria voltar no dia seguinte para finalizar. Quando cheguei em casa, meu pai quase me expulsou de casa, disse que não queria filha maconheira em casa, que aquilo era um absurdo e que se eu queria ter aquele cabelo, deveria ir embora de casa. Passei a noite chorando no banheiro e desfazendo meus dreadlocks. No dia seguinte fui ao salão mais perto de casa para consertar a besteira. Tive que cortar o cabelo e fazer uma super-hidratação. Foi a primeira vez que usei o cabelo na altura dos ombros.
Entrei na faculdade com um cabelo ruivo e curto. Durante os primeiros meses, eu não ligava para o cabelo e muito menos para as minhas colegas, eu ainda nem sabia me vestir. Mais tarde entendi que precisava mudar a coloração e passei deixá-lo mais acobreado ao invés de roxo como era antes. Foi uma boa troca e ao longo dos anos eu revezei entre cortes longos e curtos.
Quando fui para o intercâmbio, decidi deixar o cabelo crescer até voltar ao Brasil e foi um período ótimo para me enxergar de longos cabelos ruivos com pontas enroladas. Parecia um babyliss natural.
Mas esse cabelo estava com os dias contados, porque não existia mais creme no mundo que fizesse ele melhorar o aspecto de vassoura vencida.
Depois de alguns meses no Brasil, esperei a formatura para finalmente adotar outro corte de cabelo, que me acompanharia pelos próximos anos. Cortei na altura dos ombros, buscando uma imagem mais formal e funcionou até 2021, quando entrei em uma crise existencial achando que estava ficando calva. Eu via as entradas na minha cabeça e pensava que não podia mais aguentar aquilo, a qualquer momento eu ficaria calva e seria uma humilhação, eu teria que usar peruca e afins. Em março de 2021, decidir fazer uma franja! Coisa que eu não fazia desde a infância e com o intuito de disfarçar minha calvície imaginária. Então em junho de 2021 veio a notícia sobre o câncer e em julho de 2021 eu já sabia que teria que cortar o cabelo. Fiquei triste porque nesse ano eu queria deixar o cabelo crescer, já que espero me casar com um cabelão até a cintura.
Por destino ou não, uma amiga me enviou uma postagem no Instagram procurando candidatas para cortar o cabelo de graça no modelo Pixie aqui em Curitiba. Entrei em contato no mesmo dia. Quando a data chegou, tirei várias selfies, quase como uma despedida do cabelo, e depois fui de peito aberto a novidade que me aguardava.
Foi extremamente divertido passar por todo aquele processo no meio de diversas pessoas que não me conheciam, não entendiam por que eu queria mudar radicalmente meu visual, e falavam "Nossa, mas que coragem você tem!" E durante a aula de corte Pixie, a instrutora se divertiu comigo, fez vários outros cortes, aproveitou a modelo. E no final, rimos muito, mesmo sem ninguém saber o motivo do meu novo corte de cabelo.
Foi bem esquisito ser uma ruiva com cabelo pixie, mas aos poucos me acostumei. Eu sempre fui desapegada a minha aparência e principalmente ao cabelo. Achava fútil me importar com isso, não entendia por que as pessoas davam tanta importância para algo que cresce e se renova sempre.
Até que a quimioterapia começou e logo depois da segunda sessão, os fios começaram a cair. Lembro nitidamente o dia em que eu estava no chuveiro e os primeiros maços de cabelo caíram. Eu chorei, ainda não estava preparada para aquilo. Depois eu parei de chorar porque não queria me importar. Daí chorei de novo porque eu queria sentir o momento. E assim foi, entre julgamentos e sentimentos, eu lutei duas semanas, até que os fios de cabelo podiam ser contados na cabeça e entreguei a tarefa de acabar com minha dor a minha família.
Em um domingo, voltei da praia com o Matheus e fui direto para a casa da minha mãe. Ela já sabia que eu não queria esperar mais. No final da noite, pedi para cortar. Entrei no box do chuveiro, sentada em um banco de plástico e com a toalha nos ombros e o Matheus começou a passar a máquina. Primeiro a número 2, depois a 1 e no final a máquina 0. Conforme ele cortava eu perguntava "está muito feio? Estou muito feia? Como está?" E minha mãe dizia, está bom, só não olha no espelho.
Todos estavam com os olhos cheios de lágrimas, ninguém queria ser o primeiro a chorar. Eu lacrimejei e depois pensei que não era a Carolina Dickman em Laços de Família para chorar. Depois inseguros, meus pais e o Matheus fizeram piadas daquele momento e tentaram descontrair. Dentro de mim, sentia que estava perdendo metade de mim.
Eu saí da casa da minha mãe me sentindo horrível. Eu me odiava, eu odiava minha cabeça, o tratamento, eu não conseguia chorar, porque eu me sentia tão prestigiada por tudo que estava vivendo que não me permitia chorar pelo meu cabelo.
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