Enquanto passava pela máquina em que eu estava me exercitanto, nossos olhos se cruzaram, por milésimos de segundos, e nesse pequeno espaço de tempo infinito, eu entendi que não valia nem a hipótese de sentir algo por mim.
Seus olhos passaram pelos meus, mas por nenhum momento eu senti que estava ali, que existia, que era um ser humano. Nem sequer fui rejeitada, porque não existiu a consideração. Não fui ignorada, porque se ele estivesse me vendo, eu teria sorrido ou sentido o coração aquecer o ego, e depois inflar de raixa por ele não ter correspondido. Ele me considerou uma não pessoal, e se eu fosse parte da mesma máquina que estava usando, seria a mesma coisa. Eu não existi para ele.
E talvez essa seja a minha dor. Não existir para outro ser humano.
A luxúria certamente não é um dos meus principais pecados, e meu relacionamento com meu ego não é o mais importante da minha vida. Nesse caso, eu posso dizer que não fui ferida como uma mulher heterossexual que tentou flertar com um homem e não foi correspondida. A dor veio do não reconhecimento e de pensar que eu nunca mais serei como era antes do câncer. Automaticamente culpei minha cabeça raspada por sempre mostrar para as pessoas a minha maior vulnerabilidade e mais uma vez eu senti a dor de quem ainda vive, mas por dentro está quebrada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário