29 agosto 2021

quimioterapias

a quimioterapia começa as 8:00 nas quintas-feiras, a cada 2 semanas. geralmente chego as 7:50 para pegar um quarto. estaciono o carro e cada vez levo uma pessoa diferente comigo, a mãe, a amiga, o namorado.. vou até o segundo andar e me apresento, entrego a carteirinha laranja e aguardo. eles me entregam uma senha. uns 10 minutos depois, a enfermeira me chama, confere todos os meus dados, mede minha pressão, peso, saturação e temperatura. ela diz que esta tudo ok, e é só aguardar na recepção.
todo o espaço da clínica é amplo, bonito, com piso de mármore e painel de marcenaria nas paredes. enquanto eu aguardo minha vez fico me questionando quem pagou por aquele mármore todo. depois me chamam para o quarto. meu humor começa a mudar nesse momento. eu sei que vou sair de lá pior do que entrei. sei que estarei fraca, tonta, enjoada e sonolenta logo que o procedimento finalizar, mas  mantenho um  sorriso no rosto. converso com a enfermeira que elogia minhas roupas. ela traz o material para inserir o acesso no cateter, higieniza a região do meu peito e pede para que eu respire fundo e segure o ar enquanto ela me espeta com a agulha. sinto uma leve picada na pele e já posso respirar normalmente. ela faz o curativo e vai buscar a medicação.
vou ao banheiro e depois me enrolo nas cobertas. a enfermeira volta para aplicar o remédio para náusea e o antialérgico, esse último me deixa sonolenta a ponto de não conseguir finalizar uma frase. mas mesmo com sono, não consigo dormir. tomo água, confiro algumas mensagens no celular e quem me acompanha pergunta se eu preciso de algo, peço um chá com bolachinhas que eles entregam na recepção. essa primeira aplicação de medicamentos demora 1 hora e já estou com vontade de fazer xixi de novo. vou muitas vezes ao banheiro, por isso é bom estar no quarto ao invés das cadeiras da recepção.
depois de uns 2 chás e 3 idas ao banheiro, a enfermeira confere meu nome e minha data de nascimento para começar os medicamentos da quimioterapia e o soro. ela fala o nome dos remédios e eu só confirmo. primeiro vem o transparente, aplicação de 30 minutos. depois vem o vermelho sangue, que sempre me assusta, aplicação de 1 hora. e por último vem o remédio misterioso, porque ele é transparente mas não pode receber luz, então ele vem encapado em um saco preto. penso que esse deve ser o que mata mais o câncer. aplicação de 1 hora.
as enfermeiras começam a ficar ansiosas para ir almoçar, mas a medicação ainda precisa finalizar. elas aguardam. durante as horas que permaneço na clínica, tento comer, beber muita água, ir ao banheiro, e dormir. saio de lá tentando parecer bem, sem assustar quem está comigo, mas já me sinto estranha, já sei que não vai ser fácil permanecer no meu corpo no ritmo que ele se encontra. eu começo a me mover e pensar em câmera lenta. essa é a minha sensação. 
volto para casa, e depois de almoçar, eu sento na cama com um livro, separo as quintas-feiras para ler. é difícil dormir, tem muita coisa passando pela minha cabeça. vou assim até o final do dia, janto e continuo lendo. o Matheus vem no quarto algumas vezes, pergunta se está tudo bem, tenta me dar um beijo, mas eu estou chata, peço desculpas e ele já sabe, entrei no modo pós-químio. não me sinto eu mesma, não consigo sorrir, não consigo ignorar esse peso da medicação no meu corpo. permaneço assim, fraca e lenta pelos próximos 3-5 dias. é péssimo, sinto que estou me deixando abater pela doença, não gosto que encostem em mim, não gosto de ver e conversar com as pessoas, não gosto de beber água porque fica com gosto doce na boca, mas me obrigo a beber pelo menos 2 litros por dia. todos os cheiros me deixam enjoada, não gosto de ouvir música, não consigo assistir tv, não gosto de ir para a casa da minha mãe porque me sinto confusa e perdida, como se as coisas estivessem fora do lugar.
o tempo passa e aos poucos eu melhoro, tento levantar da cama com um pensamento positivo, digo para mim mesma que vou me sentir melhor, que tudo vai ficar bem e que meu dia será lindo. aos poucos eu vou me animando, me alimentando e ficando mais  forte. aos poucos volto a me sentir eu mesma e isso me deixa feliz. volto a trabalhar, ler, cozinhar e conversar com as pessoas. 
as reações passam e o que resta é agradecer por estar cada vez mais curada, mais viva!

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