11 julho 2026

um abismo em nós. um buraco em mim

Depois de assistir o filme norueguês de Joachim Trier, Valor Sentimental, e me sentir atropelada por um trem, preciso escrever para organizar todos os sentimentos. 

Mesmo admirando muito o cinema de Trier, não posso dizer que esse é o filme que mais gosto dele. A pior pessoa do mundo, ainda tem um lugar muito especial no meu coração.
Mas eu não estava preparada para tudo que esse último me fez sentir. Ele abalou algo interno que eu acreditava já ter superado e esquecido. 

O filme trata da relação entre um pai e suas duas filhas, mas o que ele mostra é o abismo entre eles, e isso me trouxe para o meu pai. 

Meu pai não foi ausente, ele esteve comigo minha vida toda, mas essa é só a capa do livro, a embalagem da lata. Dentro, existe muitas camadas de ausência.

Tenho três lembranças muito vívidas do meu pai durante a minha infância. 
A primeira foi quando meu pai me disse para dizer sim às oportunidades. Eu tinha uns 11 anos e levei aquilo muito à sério. Quando perguntaram na catequese quem gostaria de ler a bíblia durante a missa de sábado, eu levantei a mão. Lembrei do meu pai naquele instante, e concordei em fazer algo mesmo morrendo de medo. Treinei horas e horas o versículo, e depois de muito frio na barriga, fiz a leitura e fui aplaudida. Lembro dos meus pais na igreja, muito orgulhosos. 

A segunda memória é de quando eu me recusei a lavar a louça. Lá pelos meus 12 anos, tive uma fase de afrontar meus pais. Tínhamos terminado de jantar, minha avó já tinha levado todos os pratos para a pia da cozinha, e eu estava sentada à mesa, quando ele me disse para ir lavar a louça. Eu lembro de ter falado que não, fazendo uma cara desafiadora. Ele não pensou duas vezes, e me chutou a perna, com toda a força da raiva que estava sentindo. Eu não lembro o que aconteceu a partir daí. Não sei se a cadeira virou ou se eu chorei, mas lembro de ter lavado a louça.

E quando eu era ainda mais nova, com uns 9 anos, apanhei dele por brincar com a pasta de dente e colocar embaixo do tapete. Fiz aquilo para alguém escorregar e cair, lembro bem de ter assistido isso em algum desenho animado e quis imitar, mesmo sem ter intenção de machucar ninguém. 

De resto, não lembro bem nem do meu pai, e nem da minha mãe. Durante a semana, eles saíam de casa as 6h da manhã para trabalhar e voltavam tarde da noite, porque estudavam para terminar o ensino médio. Nos finais de semana, trabalhavam em restaurantes, e minha mãe também fazia faxinas extras.  Ficávamos com a minha avó materna, eu e minha irmã mais velha. Eu sentia falta deles.

Mas ainda que pouco visse eles, ainda tenho mais memórias de afeto da minha mãe. Sejam nos aniversários, fazendo os bolos, nas novenas lá em casa, ou até me abraçando. Na minha adolescência foi igual, eu compartilhava todos os meus sonhos e medos com ela, e quando meu pai entrava no quarto, eu ficava em silêncio.

Com meus 13 para 14 anos, comecei a me interessar por futebol. Aprender os nomes dos times, os títulos, quando jogavam. E contava para todos, muito contente, que era Gremista porque meu pai torcia para o Grêmio. Tive uma camisa do time e com 17 anos, eu fui com ele no estádio assistir um jogo do Grêmio contra o Coritiba. Hoje eu sinto que tentava chamar a atenção dele, ser o filho que ele não teve, agradar de alguma forma.

Quando fui para a faculdade, ele foi contra, disse que eles já tinham montado a padaria, e que era só eu cuidar, não precisava fazer mais nada. Quando arranjei meu primeiro estágio, ele e minha mãe ficaram bravos, porque eu ia parar de trabalhar na pani. Quando eu passei no intercâmbio para ir para os Estados Unidos estudar com uma bolsa integral, ele nem soube o que me dizer, já sabia que não tinha como me impedir. E quando voltei, ainda sem trabalho, porque não tinha sido chamada nos lugares que enviei o currículo, ele me viu no sofá e me disse para ir trabalhar.

Saí de casa para morar com o Matheus aos 26 anos, com um misto de inocência e paz. Fui ter o meu canto, vadiar em casa a hora que eu bem intendesse, e deixar a louça na pia o quanto eu quisesse.

Quase aos 28 anos, tive meu diagnóstico de câncer e comecei a terapia. Durante o meu tratamento, novamente minha mãe foi a principal cuidadora. Sei que meu pai estava trabalhando para que ela estivesse em todas as consultas comigo. Ele não perguntava muito sobre como eu estava, mas demonstrou seu medo em diversos momentos, através da sua ansiedade. Ele bateu o carro algumas vezes, depois raspou o cabelo, como um sinal de que estava comigo nesse caminho, mas sem me consultar ou perguntar o que eu achava. Lidou assim com a dor de ter uma filha com câncer, sem falar, mas tropeçando a cada passo.

Quando precisei fazer o transplante de medula, foi a primeira vez que meu pai foi à uma consulta comigo. Ele foi meu doador de medula e eu tive que levar isso para a terapia. Eu não sabia como lidar com o fato do meu pai me dar a vida, não uma, mas duas vezes, e ainda assim, não conseguir conversar comigo. A terapeuta me trouxe alguns fatos indiscutíveis, como a minha expectativa de ter a mesma relação que tenho com a minha mãe, com meu pai, e que isso não aconteceria, porque as pessoas são diferentes e eu não deve esperar isso dele. Outro assunto é sobre o quanto eu me esforço nessa relação, fazendo mais que a metade do caminho, enquanto ele não fazia nem 20%. Eu falei para a minha mãe que ia parar de fazer o caminho todo, de puxar as conversas, de chamar para sair. A partir dali, eu faria a minha parte como filha, mas que se ele quisesse fazer parte dele como pai, também teria que agir. 

Minha mãe confrontou ele, cobrou, e ele passou a se esforçar mais. Ainda sem saber lidar com suas dores, ansiedades e medos. Quando o tratamento passou, ele fez uma placa bem grande para colocar na frente das panificadoras, agradecendo pelas orações, porque sua filha estava curada. Ele passou a tentar se aproximar de mim, perguntar sobre a minha vida, me incentivar a fazer exercícios, me convidar para correr, para jantar na casa dele. Inclusive a mandar mensagens, dizendo que estava com saudade e passou a me abraçar mais, falar que me ama. E eu realmente o amo, abraço, pergunto, respondo alegremente, engajo nos assuntos. Acredito que estava fazendo meus 50% do caminho, até que pisei feio na bola e esqueci de chamar ele para o meu casamento no cartório. Preciso confessar que eu tinha esquecido a data e ele foi viajar exatamente naquele final de semana. Fiquei muito mal por magoá-lo. Mesmo me desculpando depois, senti uma culpa enorme, que só passou quando fiz a festa de casamento, e pedi para ele entrar comigo no altar. Foi muito especial.

Depois de tudo que passamos, acreditei mesmo que eu já tinha aberto e sarado todas as feridas da nossa relação, até porque eu gosto de olhar para frente e não gosto de me lamentar pelas dores passadas. Tudo estava indo bem, até a última quarta-feira, quando assisti Valor Sentimental, e senti um soco no estômago.

Ainda não sei descrever bem, mas no começo eu não estava gostando tanto do filme, achei monótono, lento, quase arrastado até. Mas depois as coisas foram se construindo, mais claras na minha cabeça, até que me atingiu em cheio, e não foi sobre o presente, sobre a minha relação atual com meu pai, foi sobre pensar no passado e no buraco, penhasco, abismo, que ficou em mim, de crescer com um pai presente, mas ausente psicologicamente. Essa dor de querer agradar todo e qualquer homem, por não me sentir valorizada dentro de casa, pelo meu pai. Essa necessidade de aprovação dele, de sentir que não sou suficiente, essa baixa autoestima que me persegue em decorrência dessa não relação que tive com esse homem, por mais da metade da minha vida, sem saber quem eu sou. Que colocou uma filha no mundo e nem sequer pensou no que estava fazendo, e nem sentiu vontade de quebrar o ciclo que ele mesmo sofreu, de abandono e negligência. Sinto a bola se formando no meu pescoço enquanto eu choro e concluo que não, a culpa não é apenas dele. Mas sou eu quem pagou a conta também e carrego esse buraco em mim.


sem sentir, não me reconheço

Estou atravessada por um sentimento de não reconhecimento. 
Não sei mais quem mora em mim, nem como cheguei até aqui. 
Sinto que diversas coisas que me emocionavam, já não me tocam.

Estou apática. 

preguiça

 eu tenho preguiça da classe média

tenho preguiça das pessoas que precisam saber de tudo, ter opinião sobre tudo e falar tudo que pensam

mas principalmente, tenho preguiça de quem está reclamando da sua situação de vida, e nunca passou por um trabalho que fosse realmente desumano, difícil, inseguro e traumático. de quem vive em uma bolha de graduados, que falam alto, autoconfiantes, donos da verdade. E que na realidade, nunca pegaram um ônibus lotado na vida. 

tenho preguiça das pessoas.

inquieta

outro dia, eu li que uma pessoa se descreveu como inquieta, e eu achei isso fascinante. 

primeiro porque é uma estratégia de rebranding muito efetiva. eu posso ser esquecida, ansiosa, perdida, hiperativa, incomodada, dramática e neurótica, mas agora, sou inquieta, ou seja, não soa tão ruim quanto a ansiedade e a preocupação constante. 

e também me identifiquei nesse adjetivo. para mim, ser inquieta significa que ela está em permanente agitação interna, estado de alerta, com os ouvidos ouriçados. é sobre estar vigilante à todos os sinais, mesmo quando não faz sentido algum, e não se tem controle de coisa alguma. 

é acreditar que estou prestando atenção à vida, quando na verdade só estou estressada e com muita cafeína no sangue.

10 maio 2026

09 abril 2026

uma necessidade

escrever, apenas para colocar em algum lugar todos os pensamentos que metralham minha mente a cada minuto

escrever, como estratégia de controle da ansiedade e como ferramenta de organização de ideias

escrever, para pausar os pensamentos destrutivos e para o cérebro buscar palavras que descrevam os sentimentos 

escrever, porque as mãos conseguem se mover rapidamente e digitar no teclado as palavras que travam na garganta

escrever, sem ter grandes assuntos, grandes ideias ou defesas

escrever, porque escrever é a única coisa que faço me permitindo errar, sem culpa, sem autocobrança, sem julgamentos, sem correção ortográfica, sem medo, sem perfeccionismo, sem pensar no outro


escrever, para me manter sã.

13 novembro 2025

sou feliz, eu sei

Lúcida, sóbria e consciente, sentada no banco do parque, eu me emociono, entendo a beleza da vida. Choro pela clara lição de que não sei de muita coisa, não sou dona da verdade, muito menos perfeita. E tudo isso faz parte desse ser errante que insiste em colocar um pé na frente do outro e seguir.

Sou feliz e sei.


contagem regressiva

um dia, eu sou a menina publicando histórias de amor, 
no outro, 
sou a mulher escolhendo a cor das flores do buquê de noiva. 

cresci. 

i'm tired

achar paz
no meio do caos

estou pensando
se eu consegui chegar a plenitude
ou se eu me perdi por completo
e desisti de tudo

apenas sei que vou dormir
mesmo com tudo caindo aos pedaços

cansei.

14 setembro 2025

out-zone

desconforto de sair do conforto

ao mesmo tempo

em que a autocobrança excessiva e o perfeccionismo se alinham

e o medo se instala


não é fácil ser millenium

ou não é fácil ser humana

28 junho 2025

escreva

Escrever rapidamente, só para colocar no papel, o que a gente quer gritar ao mundo

13 abril 2025

um balão vazio

meu cansaço é de ser boazinha demais,

desocupando os espaços que me cabem para dar lugar aos outros

diminuindo a mim, pelo medo do julgamento deles

11 fevereiro 2025

“seja você mesmo”

the new  capitalismo é o fim da sanidade mental

adeus consciência, olá diagnóstico de qualquer coisa que tenha te traumatizado aos 15 anos e que agora se solta das amarras para descobrir que precisa de controle

26 janeiro 2025

o tempo age

notei que estava envelhecendo aos 27 anos, quando as linhas na minha testa começaram a se tornar mais expressivas. até aquele momento, eu achava que minha pele ficaria lisa para sempre. era a juventude afrontosa de quem ainda não chegou à um terço da vida.

agora com 31 anos, olho para as minhas mãos, que mesmo bonitas e com unhas cortadas, lixadas, pintadas em um vermelho vivo, não escondem mais o início de uma pele mais madura, sem tanto colágeno, e de quem está entrando na sua quarta década.

incrível como as preocupações de antes, como ter uma mão muito magra, fina e frágil, não me ocupam mais os pensamentos. agora são apenas ansiedades sobre como manter a mão hidratada com ácido hialurônico para rejuvenescer os sinais dessas mãos que já cumpriram com tantos deveres.

e a cada momento que estou fixada no tema envelhecimento, lembro-me da Andrea Pachá com uma frase que talvez seja: "só saberei o que é chegar aos 80 anos se tiver sorte de viver até lá". e isso me cala, me traz para o presente e me faz aceitar as rugas que chegam, as marcas e manchas na pele, a gravidade que age e o metabolismo que desacelera. 

se tiver sorte, saberei o que é envelhecer. 

12 outubro 2024

o mantra diário

buscar dentro de mim o crescimento que desejo ao outro. olhar intensamente para o oceano interno, e curar as dores latentes. sentir a paz que há tanto eu anseio e pausar o atropelamento dos dias, para respirar ouvindo o vento.

ser sincera, para crescer em verdade comigo, sem comparações, sem ódio, sem raiva, só amor.